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As reflexões a seguir, são frutos de uma entrevista escrita a partir de perguntas de Rodrigo de Souza Leão, poeta e jornalista carioca, que publicou, inclusive, alguns poemas no último Correio das Artes (suplemento do Jornal A União, João Pessoa, Paraíba). Nossa conversa saiu (cheia de incorreções) no e-zine Balacobaco há uns dois anos. Aqui, fiz algumas atualizações de datas e eventos e incluí apenas as respostas.
1- Na história dos suplementos literários da Paraíba, o Correio das Artes, de A União, é o mais resistente. Foi fundado em 1949 e é, conforme a editoria, o mais antigo em circulação no país. Já tivemos outros suplementos de relevância como as revistas Presença Literária e Usina, também financiadas pelo poder público. E outras bancadas por iniciativa privada, como Garatuja, Ler e Ranhura. Hoje, mantendo uma periodicidade regular, só temos o Correio das Artes, que vez ou outra pára de circular, sacrificado de acordo com as prioridades que governantes estabelecem. Tivemos uma aparição recente das Revista Augusta, de iniciativa privada, editada por Hildeberto Barbosa Filho e Ascendino Leite, que promete o número dois. Bazar, editada por Heriberto Coelho, também será reativada.
2- A poesia, não posso dizer que a encontrei mas estou no rastro dela. Acho que nos dois livros que publiquei, ela pelo menos está, não definida mas ensaiada no tratamento dado à palavra e na temática em segunda instância. A eroticidade, a metalinguagem, a intertextualidade, o social, sob uma visão lírica. Se não fosse a questão de falta de tempo, o que muito me angustia, tolhendo meus projetos, eu já poderia ter ido mais longe. Continuo lutando por esse tempo e sei mais ou menos que caminho trilhar.
3- Sobre minhas publicações em livro, a primeira é O gozo insólito, de 1991. Uma seleção de 40 poemas escritos entre 1984 e 1990. É um livro metalingüístico, a começar do nome, e muito sensual, também. A propósito desta última nuance, o crítico Hildeberto Barbosa Filho escreveu um ensaio com o título de “Uma poesia da fisicalidade”. Continuo gostando muito dele. Se tivesse maturidade à epoca para cortar 30 % dos poemas que não tinham bom acabamento, seria um ótimo livro. Te odeio com doçura, com 52 poemas, é de 1995, com peças escritas ou re-escritas entre 1991 e 1994. Temático e menos pretensioso, esse me satisfaz mais e só cortaria de 10 a 15 %. Não sei avaliar se há uma evolução clara de um para outro, mas que existe, não tenho dúvida. Com o tempo, acrescentamos novas leituras ao nosso repertório e, consequentemente, nosso mundo poético se processa com melhor desenvoltura.
4- Não posso negar, sob nenhuma hipótese, as influências que tenho recebido nesses 19 anos de convivência com a palavra (16 de publicação). Poetas como Drummond, Bandeira, Cabral, Cassiano Ricardo, Pessoa, Lorca, Neruda me ensinam sempre quando tenho dúvidas.
5- Sobreviver graças a uma atividade que realiza e dá prazer é o sonho de qualquer ser humano. E não podemos prescindir, infelizmente, nesse modelo de sociedade, do vil metal. No Brasil, pelo menos, nunca foi possível viver de poesia. Uma meia dúzia vive de outros gêneros, como o romance ou a literatura infantil. Com a crise de identidade de fins de milênio, outros tantos começam viver do que chamam de cultura esotérica, auto-ajuda. Mas isso já não é propriamente literatura.
6- Como disse o poeta e tradutor carioca Paulo Henriques Britto, em entrevista a mim e a André Ricardo e publicada no Correio das Artes em 1998, do social devem-se encarregar as autoridades administrativas. Como seres antenados, obviamente, o problema não escapa aos poetas, indivíduos, queira-se ou não, políticos. Mas é ilusão achar que poderemos salvar o mundo tratando desses assuntos. Particularmente, não sou insensível aos males de meu povo, não faço a poesia pela poesia. Acho que o homem pode ser mais humano convivendo com o objeto sensível da arte. Porém não existe uma fórmula mágica, afora a essência própria da matéria. Vejo muitos poetas contemporâneos mantendo o mesmo engajamento exercitado nos anos áureos das década de 60 e 70, apesar de que agora a tendência seja mais a pesquisa formal, como a vemos em Frederico Barbosa.
7- E deve haver definição própria para a poesia? Se isso fosse verdade, não seria mais poesia mas uma ciência exata. Mesmo neste caso, as definições são superadas. Conhecendo, entretanto, José Paulo Paes e João Cabral, creio que seus pontos de vista não são conflitantes. Ao contrário, um contempla o outro. O talento de que fala Paes é a tendência natural que temos para determinada coisa. O trabalho a que se refere Cabral é a atitude elogiável de desmistificar a poesia como dádiva dos deuses, só possível a iluminados. A maior parte das grandes obras nasce de uma atividade constante e exaustiva. José Paulo Paes, com certeza, não se furtava a isso. Quanto à cobrança de definição própria acima, em todas as épocas, cada poeta ou grupo ou tendência estética possui seu próprio referencial e produz de acordo ou em desacordo com ele.
8- Sobre minha participação em listas de discussão da Internet, é muito gratificante o contato com meus pares através dessa nova e eficiente forma de comunicação. Serve para trocar experiência e travar novas amizades com outros poetas mundo afora. Algumas dessas listas, no entanto, têm sido experiências estanques, confrarias de vaidades. Dependendo do tempo, sou mais passivo que ativo. A maioria não nos acrescenta muita coisa, exceto o fato agradável de ver pessoas interargindo e declarando (alguns) o seu amor à palavra. Às vezes me canso e saio. Depois volto para ver como está. Vejo muito pouca gente disposta a crescer e cheia de verdades equivocadas, querendo formar opinião entre as mais inocentes. Uma das (eu disse uma das. Há outras, portanto) exceções é o poeta amazonense Aníbal Beça (antes na extinta Forum e agora em Escritas e Poemas), que está ali por pura generosidade e nem precisaria estar. Tem muito a ensinar tanto em visão de mundo como em visão da realidade poética. Outra grata companhia é a da poeta mineira Maria do Carmo Ferreira (o eco foi inevitável) na Blinda Alvorada com a nossa conterrânea Maria José Limeira (outro eco).
9- Sobre as famosas listinhas, de poetas e escritores e diretores e músicos e..., não gosto dessa forma elitista de se marginalizar quem já está à margem por natureza. É muito limitado e não contribui muito. Pelo contrário, comete-se muitas injustiças. Esses notáveis que fazem listas de melhores disso e daquilo podiam ser bem aproveitados em outros assuntos como a melhoria da educação ou democratização da cultura, por exemplo.
10- O melhor
papel que o escritor representa, para mim, é o de agente produtor
de cultura, do pensamento. Agente que constata, contesta, denuncia. Que
se propõe a rejeitar verdades, fórmulas estabelecidas. Que
educa ou deseduca dos maus hábitos, nessa aprendizagem do desaprender,
como quis Fernando Pessoa.